Francisco Cândido Xavier


Nascido em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, no dia 2 de abril de 1910. Seus pais, João Cândido Xavier e Maria João de Deus, dando-lhe o nome de Francisco Cândido Xavier.

Renasce Chico numa família composta de muitos irmãos e extremamente pobre. Sofre ele todos os reveses da vida, desde a mais tenra idade.

Quando Chico retorna ao plano físico, Pedro Leopoldo, sua cidade berço era muito pacata. O povo simples, cordial, porém muito conservador. Por esse motivo, houvera muita tristeza e indignação até na pequena cidade, porque por volta de 1901 mudaram o nome da cidade, que era chamada de Cachoeira das Três Moças para Pedro Leopoldo, em homenagem ao engenheiro que conseguira levar a linha férrea da Central do Brasil até àquele local, mais conhecido por se tratar de uma zona metalúrgica, no meio do sertão mineiro.

Apesar da alegria de alguns e a insatisfação de outros, é que o fato foi muito comemorado na pequenina cidade. Os homens saíram às ruas para ouvir a banda de música, assistir a queima de fogos e tomar a "boa cachaça" que fora servida gratuitamente, pelos donos dos pequenos bares ali existentes.

Os comerciantes de algumas lojinhas achavam que a vida iria melhorar muito, pois com a passagem da estrada de ferro, muitas pessoas ficariam conhecendo a agora cidade de Pedro Leopoldo. Para o vigário da igrejinha local, isto era preocupante, pois as rezas e as missas poderiam ficar prejudicadas.

As famílias estavam maravilhadas com o trem. Era só este apitar, e todos corriam para a estação, para ver a maria-fumaça correndo pelos trilhos e anunciando sua chegada. E enquanto todos os passageiros não desciam do trem, ninguém arredava pé da estação. Era novidade ver quem chegava para ver a cidade, que estava sendo apontada como a única que, pelos arredores, ganhara uma estação de trem.

Com isto, as mulheres acharam mais um meio de aumentar a renda familiar e passaram a vender os famosos quitutes mineiros e, principalmente, o tão famoso pão-de-queijo aos visitantes ou àqueles que estavam de passagem.

O vigário, por sua vez, tocava o sino chamando os fiéis, mas enquanto o trem não chegasse ou partisse, a igreja ficava vazia.

Chico cresceu em meio desta simplicidade, como simples fora seu espírito, já munido de humildade e sem maldades. Até os cinco anos, Chico era um menino como qualquer outro. Corria pelo quintal de sua modesta casa, subia em árvores, ficava feliz por ver os pássaros voarem e cantarem. Mas, repentinamente, sua mãezinha, Maria João, adoece. Seu João, seu pai, acreditava que o acontecimento era passageiro e que logo dona Maria estaria novamente à frente das tarefas, e cuidando da grande prole, pois já eram nove pessoas nesse lar.

Dona Maria sentia que piorava dia a dia. Sua preocupação tomava vulto. Seu esposo, João Cândido, estava desempregado. Vivia de vender bilhetes de loteria, e como Pedro Leopoldo era muito pequeno para esse serviço, ele saia pelas cidades vizinhas como Sabará, Tiradentes, Conceição do Mato Dentro, Curvelo e, às vezes, chegava até Belo Horizonte, quando alguém lhe oferecia uma carona. Com isto, chegava a ficar vários dias fora de casa.

Que fazer? - pensava Dona Maria! Uma idéia surgiu-lhe à mente. Consultaria os amigos e os parentes e pediria para que criassem seus filhos. Seriam distribuídos, para não ficar muito para cada um.

Ciente desse acontecimento, após dona Maria ter realizado seu pensamento, sendo atendida pelos amigos e parentes, Chico prostrou-se ao pé da cama e com as lágrimas a correr-lhe pelo rosto, fixou-se firmemente em duras palavras para sua mãezinha, que o olhava aflita, e este disse:

- Por quê, mamãe, a senhora está dando seus filhos para os outros? A senhora não nos quer mais?

Dona Maria contendo a emoção, segurando as mãozinhas daquela criança que começava a sofrer a dura realidade da vida material, falou:

- Não é isto meu filho, é que tenho que ir para o hospital e não sei quanto tempo vou ficar lá. Mas creia-me, eu os amo imensamente! Deus, nosso Pai, sabe o quanto me dói em ter que separar vocês. Mas é por pouco tempo.

Chico mais calmo, acariciando o rosto de sua terna mãezinha, continuou:

- Mamãe, a senhora vai morrer?

Dona Maria, firme em seus propósitos cristãos, deixou claro ao filho:

- Se alguém, Chico, disser que eu morri, não acredite, é mentira. Apenas vou dormir por algum tempo, para descansar desta doença, mas depois voltarei, estarei ao seu lado sempre.

Chico, mais calmo, despediu-se de dona Maria, sendo abençoado por esse coração materno, que realmente orientou as horas amargas do nosso amigo.

E no dia seguinte, a 29 de setembro de 1915, desencarna dona Maria João de Deus, acolhida no plano espiritual por ter cumprido sua tarefa na Terra, dando oportunidade a muitos espíritos reencarnarem, e principalmente pelo retorno à grandiosa missão que nosso Francisco Cândido Xavier teria que realizar, para a continuidade dos esclarecimentos da obra doutrinária, deixada em meio pelo mestre Allan Kardec.

Aí começaram as amarguras e grandes dores ao pequeno menino. Chico chorou convulsivamente a partida de sua amada mãezinha. Porém, guardara em seu interior a mensagem que disse ao se despedir: "estarei sempre com você, eu não vou morrer". Isto lhe serviu de alento.

Chico foi morar com sua madrinha, dona Maria Rita de Cássia, que fora amiga íntima de sua mãezinha. Mas ali começaria o calvário do menino.

Dona Ritinha, como era chamada pelo mais próximos, era muito severa, e a qualquer momento, e algo que Chico fizesse de errado, a vara de marmelo cantava nas costas dele.

Se fosse só isso, ainda seria suportável, porém, o pior é que além de apanhar, levar pescoções, beliscões, dona Ritinha acha por bem espetar garfos na barriga do menino. Chico chorava, Ritinha, mas de nada adiantava. O sangue corria-lhe pela barriga, e com isto abriu-se uma enorme ferida em sua barriga. A dor era tanta que Chico tinha até dificuldades de andar e de ir até o fundo do quintal, que era o único lugar de paz para ele. Ali ele chorava, lamentava-se e pedia socorro a Deus e à sua mãezinha.

Foi num desses dias que, além das surras e dos garfos espetados, e de ter que vestir um camisolão pintado de azul, feito de pano de saco, Chico desesperado pediu a Jesus uma resposta. Onde estará minha mãe? Ela disse que estaria sempre ao meu lado, porque ela não está aqui?
Repentinamente, dona Maria João aparece ao seu lado. Chico chorando convulsivamente e com seu pensamento de criança, rogou à mãe:

- Mamãe, por favor, quero ir embora com a senhora. Leve-me mamãe, quero ficar com a senhora, só vivo apanhando e sou obrigado a vestir essa roupa de menina. Por quê a madrinha faz isso comigo? Ela diz que vivo com o diabo no corpo. É verdade, mamãe?

Dona Maria acariciava sua cabecinha e dizia:

- Tenha paciência meu filho, ela não faz por mal, ela apenas quer que você seja obediente, e lembre-se de que, quem não sofre não aprende a lutar, para que o bem se fortaleça em nós. Não se importe com a sua roupa, e nem com o diabo. Lembre-se de orar a Jesus, por ela, e para que você não retenha o mal no seu coração. Tudo irá passar, e nós estaremos sempre juntos. Virei ajudá-lo nas orações.

A partir daí, Chico ficou mais resignado, já não chorava, nem por apanhar e nem pelos garfos. Dona Ritinha achou que ele estava ficando cada vez mais "aluado", e dizia para os vizinhos: "Diz ver sua mãe que já morreu, e com isto demonstra cinismo quando apanha, pois não derruba nem uma lágrima."

Piores situações ainda estavam por vir para os sofrimentos do pequeno Chico. Dona Ritinha criava um filho adotivo, de nome Moacir, que abeirava seus doze anos. Ele, há tempos, tinha uma enorme ferida na perna de aspecto desagradável. Dona Ritinha já havia recorrido a todos os meios e nada da ferida secar.

Procurou, então, os préstimos de uma famosa benzedeira local. Dona Ana Batista, após ver o problema, falou:

- Olha dona Ritinha, aqui só mesmo uma simpatia para dar certo, só isto poderá me ajudar nas rezas.

- E como é essa simpatia? - perguntou dona Ritinha aflita.

- Durante três sextas-feiras, essa ferida terá que ser lambida por uma criança em jejum.

Dona Ritinha, após um espanto, pensou e perguntou: - O Chico serve para fazer isso?

- Serve sim. Ele não é aquele menino aluado que você passou a cuidar, depois que a mãe dele morreu?

- É ele mesmo!

- Ótimo, ninguém seria mais perfeito para isso.

À tarde, Chico já sabia do que o esperava. Saiu correndo para o quintal. Precisava falar com sua mãezinha. Chorando muito, quando a viu, contou tudo e a sua repugnância pelo fato de ter que lamber a ferida do irmão adotivo.

Dona Maria João, acariciando o rosto do pequeno disse:

- Você deve obedecer a sua madrinha. Lembre-se de que Jesus nos ensina paciência e abnegação. Pense que você está fazendo o bem, é melhor do que deixar sua madrinha nervosa.

- E a ferida vai secar? - pergunta Chico agora mais resignado.

- Não, porque isso não é remédio, mas com sua humildade, nós teremos condições de fazer o remédio e a cura se fará.

Diante disto, e tendo a cobertura de sua mãezinha, no dia seguinte o Chico começou o tratamento. No princípio ele sentiu raiva por ter que fazer aquilo tão nojento, mas com a ajuda de dona Maria, que ele via ao seu lado, dando-lhe forças, ele lambia a ferida e pensava: "Como eu queria que a minha língua fosse bem grande para com só uma lambida, o problema passasse e acabaria logo este tormento."

Na terceira sexta-feira, a ferida já estava quase cicatrizada. Chico deu graças a Deus e implorou à sua mãe para dar um jeito de ninguém aparecer com feridas, ali pelos arredores de Pedro Leopoldo. Dona Maria o abraçou e lhe disse:

- Você vai se dar muito melhor com sua madrinha de agora em diante, meu filho.

Pela primeira vez, dona Ritinha, após dois anos de convivência com o menino, aproximou-se dele de forma carinhosa e lhe disse:

- Muito bem Chico, você obedeceu e fez tudo direitinho. Louvado seja Deus! - e abraçou-o comovidamente.

Chico ficou contente, até feliz, porque lembrou dos conselhos de sua mãezinha, ela tinha razão, pois não apanhou mais e nem dona Ritinha o machucou com os garfos em sua barriga.

Chico sempre que lembrava este fato, dizia que aprendera a reconhecer em dona Ritinha, sua grande educadora.

Casos pitorescos aconteciam na vida do menino Chico. Para muitos ele era lunático, mas ele era uma criança normal. Apesar do pouco tempo que dispunha, ele gostava de jogar bola, mas as crianças o evitavam, pois diziam que ele era estranho. Mas, certa feita, ele foi convidado por um dos meninos do bairro onde viviam, a comparecer em seu aniversário.

Como era muito tímido e sabedor que se fosse, todas as crianças zombariam dele chamando-o de lunático, Chico não queria ir, mas dona Ritinha fez com que aceitasse, e lá foi o Chico com seu irmão adotivo, o Moacir, a quem Chico lambera a ferida.

Como era natural as crianças jogavam bola. Ele se entusiasmou e entrou na brincadeira. As crianças ficaram meio paradas sem saber se Chico ficaria na brincadeira ou não, mas após cochichos daqui e dali, deixaram-no jogar. Logo após, a bola acertou a cabeça de um dos meninos e este vai ao chão. A gritaria foi enorme, o menino chorava dizendo que a cabeça doía. O pai vem ao socorro do filho, e muito nervoso, pergunta o que havia acontecido, e os outros em coro apontaram Chico, dizendo que ele havia jogado a bola para cima, sem respeitar as regras do jogo. O pai com o filho, meio cambaleante, exige que o Chico faça alguma coisa, dizendo:

- Você foi o culpado, seu lunático, por isso como você vive falando com fantasmas, faça meu filho ficar bom, senão irei falar com dona Ritinha.

Chico, chorando muito, pois não havia nem pego na bola, dizia que não sabia o que fazer. Subitamente, ele vê sua mãezinha que pede para ele se acalmar e passar a mão na cabeça do amiguinho, que ela iria ajudá-lo. Chico obedece, e logo após o garoto para a choradeira e reequilibrado, pede que todos recomecem o jogo. Chico sente um alívio no coração. Graças a Deus e à sua mãezinha, ele não iria retornar a apanhar de sua madrinha, dona Ritinha.

Os garotos e o pai do que havia se machucado, reconheceram que Chico não tivera culpa e que graças a ele e à sua maluquice com os fantasmas, tudo ficara bem. Pediram desculpas, e tudo ficou em paz.

E, fatos como este foram se sucedendo na vida deste missionário, que muito teria ainda que mostrar ao mundo.

Com o passar do tempo, seu João Cândido não suportava mais a solidão, e casa-se novamente. Logicamente que este acontecimento foi projetado pela espiritualidade. Dona Maria, mãe do Chico, vendo a necessidade do companheiro, e a falta de uma esposa em que pudesse ser confiada a educação e a união familiar, pede aos espíritos superiores que a ajudem a encontrar alguém que pudesse interceder pelo trabalho grandioso que Chico precisaria desenvolver, e principalmente ajudar aos irmãos na reencarnação.

E foi aí que seu João Cândido encontra dona Cidália Batista. Ela durante algum tempo, ao desprender-se do corpo pelo sono, havia sido consultada para essa união, ao qual aceitou com pleno agrado, por ter tomado conhecimento da obra grandiosa que Jesus confiara a Francisco Cândido Xavier. Ele, portanto, seria seu filho dileto, ela seu anjo guardião e também da família de dona Maria João de Deus, sua amiga e parceira da espiritualidade.

Pela primeira vez, Chico sentiu-se feliz, após a partida de sua mãezinha. Dona Cidália recebeu de braços abertos e ainda mais, fêz com que seu pai trouxesse todos seus irmãos para o lar novamente, reunindo dessa forma toda família.

Chico considerava dona Cidália não como madrasta, mas sua segunda mãe. Confiava todos seus pensamentos a ela.

Contava-lhe das visões que tinha, do contato permanente com sua mãezinha. Da alegria de dona Maria João, por ver todos reunidos. Perguntava, Chico, para dona Cidália o porque que em muitas vezes ele se via em outros lugares, que não era Pedro Leopoldo. Mas ele não podia contar isso para ninguém, pois achavam que ele não"batia bem da cabeça". E isso trazia uma grande tristeza para o seu coração, pois ele gostaria de poder estar na escola e ter muitos amiguinhos.

Dona Cidália, com toda bondade, explicava ao Chico que não sabia o que queria dizer as visões que ele tinha, mas que ela acreditava, e iria fazer todo o possível, para que ele e os irmãos fossem para escola. "No mais, confie Chico em Deus, que Ele providenciará alguém que explique o porque você vê e ouve vozes que não da Terra".

Essa laboriosa mulher faz seu João Cândido entender da necessidade dos filhos irem para a escola. Mas, dizia ele, como fazer para comprar livros, cadernos, lápis, para todos? De onde tirar dinheiro? O que ganhava mal dava para o sustento de todos.

Mulher ativa, ela rápido encontrou a solução. O quintal da casa em que moravam era imenso. Havia muita terra que poderia ser transformada em canteiros produtivos.

Assim foi feito, e belos canteiros de verduras começaram a brotar, animando a família toda para continuar a plantar. Com a venda das verduras e dos legumes colhidos, seu João arrecadava o dinheiro para poder manter os filhos na escola.

Chico foi matriculado em 1919, no Grupo Escolar São José. Ele não foi um aluno excepcional, pois tinha que ajudar no trabalho da horta e na venda das hortaliças. Repetiu o quarto ano, pois além do trabalho, tinha a saúde frágil e nesse último ano, o qual houve a repetência, passou quase que todo acamado. Mas as suas visões com o Além estavam cada vez mais acentuadas. Ele já passara a conversar com os espíritos aceitando, por assim dizer "ser normal".

Em 1922, todo o país estava em festa. Comemorava-se a Independência do Brasil. O Governador de Minas Gerais criou vários prêmios para o aluno da escola que apresentasse a melhor redação sobre a história do Brasil.

Chico cursava o quarto ano e estava com 12 anos, por essa época. Dona Rosária Laranjeira, sua professora, marcou o início da redação para o dia seguinte, e falou que todos os alunos deveriam vir preparados para fazer a melhor redação possível.

Quando Chico foi iniciar o trabalho, viu que um homem estava ao lado da carteira e disse-lhe que não temesse, pois ele o ajudaria na redação, portanto, que começasse a escrever o que ele ditasse. Chico assustado, perguntou ao aluno do seu lado se ele também via e ouvia o que o homem estava dizendo, pois ele não falava baixo. O menino começou a rir, e disse que ele deveria estar mesmo confirmando o que todos falavam, que era lunático mesmo.

Chico, inconformado pediu licença para dona Rosária e chegando perto dela, falou do acontecido. Dona Rosária muito católica, mas extremamente compreensiva, perguntou ao Chico o que o homem ditava para ele escrever.

Chico repetiu, pois ouvira várias vezes, diante do seu temor em escrever: Ele ditou: "O Brasil, descoberto por Pedro Álvares Cabral, pode ser comparado ao mais precioso diamante do mundo, que logo passou a ser engastado na coroa portuguesa".

A professora ouviu espantada e admirada pela bela frase mandou o Chico concluir o trabalho e disse:"Não importa se o trabalho foi ou não ditado por um homem invisível, o importante é terminar e entregar a redação".

Tempos depois a Secretaria de Educação de Minas Gerais entregava o resultado do concurso que fora disputado por muitos estudantes, em todo o Estado. E coube ao nosso querido Chico o prêmio, com menção honrosa.

Os boatos correram solto. Chico era taxado de mentiroso, e que ele por certo teria copiado de algum livro o que escrevera, pois ele era incapaz de escrever algo útil, por ser lunático.

Chico procurava se defender, dizendo que havia contado à professora de que um ser sobrenatural havia lhe ditado o assunto. Mas a professora mandou-o seguir com o trabalho.

Um dos alunos fez um desafio: já que esse ser invisível existia, então ele deveria apresentar-se novamente, só que para escrever sobre algum assunto proposto pelos alunos, ali naquele instante.

Chico viu o homem reaparecer e aceitar o desafio. Pedira a Chico que se tranqüilizasse. A professora, que tudo acompanhava se fez de mediadora e aceitando o desafio, pediu ao Chico que fosse ao quadro-negro e escrevesse diante de todos, para confirmar a veracidade do fato.

Que tema seria? - perguntou um dos alunos. Uma aluna que morava numa casa em reformas, sugeriu que o tema fosse sobre a areia. As risadas foram unânimes. Areia, que tema sem sentido! Mas, por ponderações da professora, o tema foi aceito.

E Chico passou a escrever sob a pressão manual do espírito, que ditava: "Meus filhos, ninguém escarneça da criação. O grão de areia é quase nada, mas parece uma estrela pequenina refletindo o sol de Deus".

Depois disso, a professora proibiu qualquer comentário a respeito de "coisas do outro mundo", ou desfeitas e ofensas ao Chico, pois que seria impossível, a um menino de doze anos, fazer tantas colocações de alto teor, a respeito de assuntos com tantas profundidades e tão verdadeiros.

Dessa forma Chico foi se desenvolvendo em meio a mil dificuldades. Com as visões do além sempre contínuas, seu pai, a conselho do padre Sebastião Scarzelli, quis ter um diálogo com o menino, pois dizia ser um absurdo pensarem em interná-lo num sanatório. Que tudo o que ele dizia ver e ouvir, deveria ter um acompanhamento psiquiátrico, pois fugia ao seu entendimento como padre católico.

A solução dada pelo padre, com a insistência do senhor João Cândido, era para que colocasse o menino na fábrica de tecidos. Dessa forma, aumentaria o orçamento da casa e Chico trabalharia o dia todo, sem tempo para visões.

Chico passou a trabalhar das três da tarde até a madrugada. Dormia até as seis, levantava e ia para a escola. Saía às onze para o almoço, quando procurava descansar um pouco, e logo após voltava ao trabalho como tecelão.

Com o tempo a poeira do algodão começou a prejudicar os seus pulmões e, a conselho médico, teve que trocar de emprego.

Em 1923, Chico consegue concluir o curso primário. Sua professora, dona Rosária Laranjeira, conhecendo em Chico grandes potencialidades intelectuais, quis levá-lo para Belo Horizonte, para que ele pudesse estudar, pois ela estaria disposta a custear seus estudos. Mas, seu João Cândido não concordou, pois o salário do menino, iria fazer muita falta, pois além dos nove filhos do primeiro casamento, nasceram mais seis com Cidália.

Em 1925, Chico passa a trabalhar no comércio, como auxiliar de cozinha no Bar do Dove. Depois, na venda do senhor José Felizardo Sobrinho. Horário puxado. Mas o que mais deixa esse adolescente triste, era o de ter que vender bebida alcoólica. Pois os alcoólatras bebiam, caíam e Chico tinha que carregá-los e levá-los para a casa. Isso o deixava arrasado.

Por insistência do padre Scarzelli, Chico passou a freqüentar as missas aos domingos, a confessar e a comungar, e ainda fazer parte das procissões. Com isto, o menino lunático ficou no passado e dona Maria João não aparecera para ele.

Uma das irmãs de Chico, Maria da Conceição, começou a apresentar violentos acessos de loucura, isto por volta de 1927. Tomadas todas as providências o caso não melhorava.

Esse fato chegou aos ouvidos do casal, médiuns, o senhor Hermínio e Carmem Perácio. Maria da Conceição, a pedido deles, foi levada pelo pai à casa desses, que constataram grave problema obsessivo. Querendo ou não, a família de Chico, inclusive ele, passaram a freqüentar as reuniões, e Maria da Conceição foi recebendo tratamento espiritual e, a olhos vistos, começou a apresentar melhoras.

Para Chico foi uma surpresa quando numa determinada noite de estudos Evangélicos, após sete anos, ele revê sua mãezinha. Chora convulsivamente. Chico recebe uma mensagem psicografada por Dona Carmem, onde ela escreve: "Filho, confie em Deus, lembre-se sempre em ser bom e digno. Você tem uma longa estrada pela frente, para realizar um trabalho árduo por caminhos pedregosos, mas Jesus enviará seus mensageiros para ajudá-lo. Estude, trabalhe e confie, pois Deus espera muito desta sua reencarnação, para que dê bons frutos". Maria João de Deus
Chico nesse instante deduziu que sua vida estava, portanto, descrita em três períodos fundamentais para ele.

A primeira fase de incompreensão mediúnica, por ver sua mãe e com cinco anos não conseguir atinar o porquê. A segunda fase, até aos dezessete anos, onde sentia a influência de espíritos felizes e infelizes, a se fazerem presentes constantemente em sua vida de adolescente, e a terceira fase, onde ele encontra a resposta para tudo, quando recebe mensagem de sua mãezinha.

Depois dessa importante reunião mediúnica, fixou-se a idéia de organizarem um centro espírita em Pedro Leopoldo, dando início, dessa forma, à luminosa trajetória mediúnica de Francisco Cândido Xavier.

Durante quatro anos, com paciência e humildade, Chico, foi aprendendo a psicografar. No início, ficava extenuado. Depois, foi se amoldado às mãos dos Espíritos. Aí, era só pegar lápis e papel que a mensagem fluía. (Trecho do livro"Chico Xavier, uma Vida de Amor" De Ubiratan Machado.)

Em 1931, Chico procurava meditar e descansar sempre em baixo de uma bela árvore que ficava perto de um açude, na saída para a estrada, após deixar-se Pedro Leopoldo. Lugar belíssimo.

Repentinamente ele vê um Espírito vindo ao seu encontro. Vestia-se com uma túnica. Elegantemente com gestos educados, cumprimentou Chico. Luzes circundavam esse Espírito que deixaram o nosso Chico emocionado, pois sentia-lhe a gloriosa fluidificação. Chico apressou-se a perguntar o porque dessa magnífica aparição, a qual a entidade apresenta-se como Emmanuel e indaga de Chico:

- Queres trabalhar mediunicamente na expansão do Evangelho de Jesus? Confiar sua vida em ser servidor abnegado aos princípios da Lei de Amor?

- Sim - responde Chico ainda sob forte emoção - mas o senhor acha que estou à altura de tão sublime missão? Sei que a mediunidade é de suma responsabilidade e, além de procurar esclarecer-me através do empenho à tarefa, que mais o senhor me ensina?

Emmanuel, olhando fixamente para Chico, e vendo sua vontade e sinceridade em sua mente, diz-lhe:

- Desde que você se propõe ao serviço é preciso que você respeite três pontos fundamentais para que tudo transcorra bem: 1º disciplina - 2º disciplina - 3º disciplina.

Desse dia em diante, Emmanuel tornou-se a estrela guia na vida do médium, que dedicou-a inteiramente às obras mediúnicas, tornando-se o Evangelho vivo sobre a Terra, pois tudo o que recebeu do Alto, passou a exemplificar, tal como fez o Mestre Jesus.

Nesse mesmo ano 1931, Chico recebe o primeiro poema, com a assinatura de um grande poeta que fora Casimiro Cunha. Chico não o conhecera, evidentemente, pois o poeta vivera e morrera em Vassouras, em 1914.

Depois, muitos outros poemas foram sendo psicografados e assinados por grandes literatos, como: Olavo Bilac, Fagundes Varela, João de Deus, Guerra Junqueiro, Dom Pedro II, Cruz e Souza e muitos outros.

Por esses acontecimentos, toda Pedro Leopoldo fervia em comentários. Para uns, Chico, após uma pausa viera novamente a se tornar lunático, para outros ele piorava e muito. Como ficar vendo e ouvindo gente morta, há tanto tempo, o dia inteiro?

Mas o médium mineiro, auxiliado por Emmanuel continuou sua missão. Sabia agora, mais do que nunca, que seu trabalho material, continuava ganhando o suado pão de cada dia, ajudando a manter a família.

Em 1932, Manuel Quintão da Federação Espírita Brasileira, sabedor e conhecedor das poesias mediúnicas, pediu ao Chico que as reunisse todas, pois era preciso editá-las em livro.

Assim, apesar de todos os prós e contras, surge ao mundo o primeiro livro psicografado por Francisco Cândido Xavier, com o nome de Parnaso de Além-Túmulo.

A gritaria foi geral, jornais do Rio de Janeiro e São Paulo mandaram repórteres e fotógrafos a Pedro Leopoldo, para publicarem e mostrarem ao país inteiro, a espíritas e não espíritas, o mineirinho de 22 anos, que de repente saíra do anonimato, para ser mostrado como real ou mistificador, por ousar colocar nomes tão respeitosos e tão conhecidos nos meios literários, nessa obra do Além!

Sabedor e estudioso profundo da literatura, Monteiro Lobato escrevera para os jornais o seguinte:

"Se, Chico Xavier, conseguiu escrever tudo o que está ali contido no livro Parnaso, diria que ele mereceria ocupar quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras".

Menotti Del Picchia escreve: "Francisco Cândido Xavier deve ser um fenômeno, para ressuscitar espiritualmente todos esses grandes poetas, com poesias inéditas e tão ao estilo de cada poeta. Sendo assim, só mesmo pelo prodígio desse ser, que poderemos contar com a continuidade dessas belas páginas vindas do sobrenatural".

Críticas maldosas também fizeram parte dos periódicos, revistas e até livros da época.

R. Magalhães Júnior, escritor famoso e crítico auda


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